Confesso a minha impiedade: não consigo amar a Deus. Não consigo amar nada abstrato. Preciso de um rosto, de uma voz, de um olhar, de um toque de mão. Amo com os meus sentidos. Mas Deus, eu nunca vi. Não sei como ele é. Por isso não consigo amá-lo. Meu mestre Alberto Caeiro está pior do que eu, pois chega ao ponto de afirmar que nem mesmo pensar em Deus ele consegue. “Pensar em Deus é desobedecer a Deus, porque Deus quis que não o conhecêssemos, por isso se nos não mostrou.“
O amor é o melhor tônico de memória. Quando o nome da coisa amada é pronunciado, ela logo ressuscita dos mortos e aparece viva em nossa imaginação. E o corpo se enche de saudades. A saudade é o sintoma de que uma coisa amada-perdida saiu do túmulo. Mas o nome de Deus não faz nada com a minha memória. Não provoca ressurreições. Não sinto saudade de coisa alguma. O corpo não se comove.
[...] Esses cacos de vitral, essas contas de vidro coloridas - isso meu corpo e minha alma amam, para todo sempre. O amor não se conforma com o veredicto do tempo - os cacos do cristal se perdendo dentro do mar, as contas de vidro colorido afundando para sempre no rio do tempo.
Quero que tudo que eu amei e perdi me seja devolvido. Todas essas coisas moram nesse imenso buraco dolorido da minha alma que se chama saudade.
Para isso eu preciso de Deus, para me curar da saudade. Dizem que o remédio está no esquecimento. Mas isso é o que menos deseja aquele que ama. Conta-se de um homem que amava apaixonadamente uma mulher que a morte levou. Desesperado, apelou para os deuses, pedindo que usassem seu poder para lhe devolver a mulher que tanto amava. Compadecidos, eles lhe disseram que devolver a sua amada eles não podiam. Nem eles tinham poder sobre a morte. Mas poderiam curar o seu sofrimento, fazendo-o esquecer-se dela. Ao que ele respondeu: "Tudo, menos isso. Pois é o meu sofrimento o único poder que a mantém viva, ao meu lado!"
Também eu não quero que os deuses me curem, pelo esquecimento. Quero antes que eles me devolvam minhas contas de vidro. E é assim que eu imagino Deus: como um fino fio de nylon, invisível, que procura minhas contas de vidro no fundo do rio e as devolve a mim, como um colar. Não por ele mesmo (sobre quem nada sei), mas por aquilo que ele faz com minhas contas....
Quero Deus como um artista que cata os cacos do meu vitral, partido por pedradas ao acaso, e os coloca de novo na janela da catedral, para que os raios de sol de novo por eles passem.
O que eu quero é um Deus que jogue o jogo das contas de vidro, sendo eu uma das contas coloridas do seu jogo...
(Transparências da eternidade, Verus, 2002)

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