segunda-feira, 21 de março de 2011

À Luz de Velas



Estava um dia lindo. Ela e ele iriam despedir-se dentro de algumas horas. Ela para são Paulo, ele para a Polônia. Ele vindo da Itália, ela da Bahia. Ambos no aeroporto do Rio de Janeiro. Até a próxima. Tinham se conhecido a uma semana. Ela muito morena e exuberante. Ele muito branco e desajeitado. E daí havia nascido um romance. Desses com direito a beijo de cinema (ele era cineasta), juras de amor, certeza de que foi um absoluto engano, arrependimento, e a volta que agora se transformava em ida para o não sei. Aliás, nunca sabemos. Vôo 147, VASP, primeira  chamada. Check-in aberto.

Eu presenciava esse filme. Meio de lado, meio de costas, eu era a vela que iluminava esse último jantar. Ambos eram meus amigos. Eu, a ponte que ficava. Faltavam vinte minutos para a separação. Vinte minutos a mais que eu teria que suportar aquela paixão me consumindo por todos os poros. Não há nada mais agradável e desagradável ao mesmo tempo do que acompanhar, sozinho, um casal apaixonado. Assiste-se à esperança e constata-se a própria solidão. Eu, um carrinho de malas e uma televisão. Check-in aberto. Meu coração.

Pensei naquele aeroporto. Acho que os aeroportos são os lugares onde existe a maior concentração de sentimentos por segundo. Quantos milhares de pessoas choram, riem, abraçam-se, despedem-se por dia num espaço-tempo que abre a porta para o nunca mais. Quantos gritos engolidos de “fica mais um pouquinho...”, “não vai não”, “vai com Deus, meu filho”, “fica bem”, “se der, me escreve”, “volta logo”, “adeus”. Num aeroporto tudo está em movimento e o tempo está sempre devolvendo ou engolindo a sua bagagem. Vôo 147, VASP, segunda  chamada. Check-in aberto. Eu acesa, queimando. Faltavam  dez minutos. Seiscentos beijos? Cento e oito abraços? Que o tempo não passe, pediam os amantes...

Mas passou. Ao fim do último minuto tocou o terceiro sinal. O espetáculo daquele casal ia para outro cenário. Abracei-os. Disse que os amava muito e que esperava recebê-los em breve. Disse isso porque não tinha nada a dizer e também porque combinar um próximo encontro, mesmo que falso, alivia muito o momento da separação. Nenhum dos dois chorava. Engoliam. Às vezes a saliva faz o papel da lágrima de dentro. Eu, a vela acesa, não agüentei e escorri um pingo de cera. Um não, alguns. E, finalmente, apaguei. Vôo 147, VASP. Check-in fechado.

Fim do primeiro episódio

Mas eu mereço. Um mês depois eu voltava de viagem rumo ao mesmo aeroporto. Entrei no avião e tive a agradável constatação de que eu ocuparia o terceiro lugar ao lado de um casal. Estava novamente um dia lindo e, para completar, meu lugar era no corredor, longe da janela. Sem companhia, sem paisagem. Risquei um fósforo e acendi minha vela de novo.

O casal, aparentemente em paz, conversava. Deviam ser namorados há muito tempo. Que bom, pensei. Viagem tranquila. Foi quando ele e ela começaram a beijar-se intensamente. Ela  lhe fazia cafunés, ele apertava as mãos dela. Depois afrouxaram os cintos e ele, surpreendentemente, mordeu a coxa dela. Ela ria. Ela espremeu uns cravos nele. Ele dizia que era bom, que não doía. Já estavam de perfil no assento. Pés e mãos misturados, os olhos vesgos de tão perto. Ele elogiava os olhos dela. Ela a boca dele. Estavam nas nuvens. Eu ali. Pelo pouco que eu conseguia ver o entardecer da janelinha era realmente lindo. Eu pensava que devia haver um motivo muito forte para eu ter que estar passando por aquilo tudo. Essa maldita esperança de novo. Confraternizei com uma alface de plástico servida a bordo que nem sequer foi servida ao casal. Os comissários perdoavam. Tinham certeza de que se houvesse um acidente morreriam felizes por poderem estar juntos sem o cinto de segurança.

Anunciaram, então, que faltava meia hora para o pouso. Agradeci a Deus. Já havia superado o meu limite, estava de bom-humor e já tinha até detectado lá no fundo uma alegria meio suspeita. Foi quando o casal silenciou. Ainda de mãos dadas e olhando nos olhos um do outro começaram a dizer o quanto tinha sido importante aquele fim de semana. “Fim de semana?”,  pensei. Ela dizia que ia sentir muita falta da orelha dele. Ele, mais corajoso, dizia o mesmo em relação ao corpo dela. Ela tinha adorado as mãos dele. Ele as dela. Ela queria ter um filho homem. Ele disse: “eu também!”. Ela disse que a mulher  sempre sabe quem será o pai dos seus filhos. Ele se espantou, mas concordou. Os homens também sabiam. Silenciaram. Olhavam agora para a frente e repetiam, como quem tenta convencer a si próprio, que o importante é viver o momento. Numa dessas terríveis coincidências, o tempo havia fechado e chovia muito, o que fazia com que eu sentisse a alface de plástico muito próxima de voltar à sua origem devido aos tremores do avião. Mas, vela não  apaga assim. Eu, pelo menos, não.

O casal agora trocava endereços e ambos diziam que iam telefonar. Ela cantou um trecho de uma música. Ele consentiu. Sorriram amarelo. “Atenção passageiros, apertem os cintos, preparar para o pouso”. Se olharam. Tentaram sorrir. Não teve graça. Então choraram. E se abraçaram novamente nos dez minutos intermináveis dos amantes. Eu mereço. Dessa vez, em mais uma das terríveis coincidências, o comissário não passou direto. Mandou que voltassem às suas posições normais e separou o abraço. Não aguentei. A vela teve que escorrer mais uma lágrima de cera.

Fim do segundo episódio

Ah, antes disso ela disse a ele: “Meu namoro acabou”. Não entendi.
Pegar bagagens. Eu, de novo, naquele aeroporto. Agora era o casal que tinha cara de vela. Eu estava, graças a Deus, muito feliz de não ser mais obrigada a compartilhar daquela história. Só que algo esquisito havia acontecido. Como se eu tivesse gostado de começar a acreditar. Não sei. Nunca se sabe.

Resolvi, então, acompanhar o desfecho daquele romance. Pegamos todas as nossas bagagens e segui a dupla com meu carrinho. Saímos. Ela dizia afastada dele: “Posso ligar?”. Ele respondia: “Promete?” Ela: “Amanhã?” Ele: “Promete?” Ela: “Casa comigo?” Ele: “Promete?”. Os carrinhos se afastando, afastando, afastando..., e eis que a vejo beijando outro ele  e ele beijando outra ela. Meu Deus! Que loucura! Só pode ser esse aeroporto, pensei. Confesso que fiquei meio confusa a até um pouco triste porque já estava torcendo pelo casal. Quem sabe eles não se encontram novamente, não é? Quem vai saber? Ninguém. Nem eles.

Pensei, então, que, na verdade, a vida é um imenso aeroporto. Que estamos todos vindo e indo para algum lugar de onde não sabemos se vamos voltar. Estamos todos nos ares, flutuando entre um “fica mais um pouquinho” e um “até logo”. Check-in aberto. Últimos dez minutos. Um quadro de vôos piscando, piscando, piscando, 175, 194, 703, 209, 326,... Impossível não viajar. Todo mundo um dia é engolido pela esteira da bagagem e levado para cima das nuvens, para perto das estrelas, para longe do mar, para o lado do sol. E, realmente, se formos observar, visto lá de cima  o mundo é mesmo muito grande e nós muito pequenos. E essas histórias que eu acabei de contar, então, menores ainda.

Para esses dois casais que partiram rumo ao não sei, só tenho a dizer, olhando daqui da janelinha: “O que é um adeus diante do cosmos?”

Nada além de uma gota de cera.
Bianca Ramoneda, in ""

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