Estava um dia lindo. Ela e
ele iriam despedir-se dentro de algumas horas. Ela para são Paulo, ele para a
Polônia. Ele vindo da Itália, ela da Bahia. Ambos no aeroporto do Rio de
Janeiro. Até a próxima. Tinham se conhecido a uma semana. Ela muito morena e
exuberante. Ele muito branco e desajeitado. E daí havia nascido um romance.
Desses com direito a beijo de cinema (ele era cineasta), juras de amor, certeza
de que foi um absoluto engano, arrependimento, e a volta que agora se
transformava em ida para o não sei. Aliás, nunca sabemos. Vôo 147, VASP, primeira chamada.
Check-in aberto.
Eu presenciava esse filme.
Meio de lado, meio de costas, eu era a vela que iluminava esse último jantar.
Ambos eram meus amigos. Eu, a ponte que ficava. Faltavam vinte minutos para a
separação. Vinte minutos a mais que eu teria que suportar aquela paixão me
consumindo por todos os poros. Não há nada mais agradável e desagradável ao
mesmo tempo do que acompanhar, sozinho, um casal apaixonado. Assiste-se à
esperança e constata-se a própria solidão. Eu, um carrinho de malas e uma
televisão. Check-in aberto. Meu coração.
Pensei naquele aeroporto.
Acho que os aeroportos são os lugares onde existe a maior concentração de
sentimentos por segundo. Quantos milhares de pessoas choram, riem, abraçam-se,
despedem-se por dia num espaço-tempo que abre a porta para o nunca mais.
Quantos gritos engolidos de “fica mais um pouquinho...”, “não vai não”, “vai
com Deus, meu filho”, “fica bem”, “se der, me escreve”, “volta logo”, “adeus”. Num
aeroporto tudo está em movimento e o tempo está sempre devolvendo ou engolindo
a sua bagagem. Vôo 147, VASP, segunda chamada. Check-in aberto. Eu acesa,
queimando. Faltavam dez minutos.
Seiscentos beijos? Cento e oito abraços? Que o tempo não passe, pediam os
amantes...
Mas passou. Ao fim do
último minuto tocou o terceiro sinal. O espetáculo daquele casal ia para outro
cenário. Abracei-os. Disse que os amava muito e que esperava recebê-los em
breve. Disse isso porque não tinha nada a dizer e também porque combinar um
próximo encontro, mesmo que falso, alivia muito o momento da separação. Nenhum
dos dois chorava. Engoliam. Às vezes a saliva faz o papel da lágrima de dentro.
Eu, a vela acesa, não agüentei e escorri um pingo de cera. Um não, alguns. E,
finalmente, apaguei. Vôo 147, VASP.
Check-in fechado.
Fim
do primeiro episódio
Mas eu mereço. Um mês
depois eu voltava de viagem rumo ao mesmo aeroporto. Entrei no avião e tive a
agradável constatação de que eu ocuparia o terceiro lugar ao lado de um casal. Estava
novamente um dia lindo e, para completar, meu lugar era no corredor, longe da
janela. Sem companhia, sem paisagem. Risquei um fósforo e acendi minha vela de
novo.
O casal, aparentemente em
paz, conversava. Deviam ser namorados há muito tempo. Que bom, pensei. Viagem
tranquila. Foi quando ele e ela começaram a beijar-se intensamente. Ela lhe fazia cafunés, ele apertava as mãos dela.
Depois afrouxaram os cintos e ele, surpreendentemente, mordeu a coxa dela. Ela ria.
Ela espremeu uns cravos nele. Ele dizia que era bom, que não doía. Já estavam
de perfil no assento. Pés e mãos misturados, os olhos vesgos de tão perto. Ele
elogiava os olhos dela. Ela a boca dele. Estavam nas nuvens. Eu ali. Pelo pouco
que eu conseguia ver o entardecer da janelinha era realmente lindo. Eu pensava
que devia haver um motivo muito forte para eu ter que estar passando por aquilo
tudo. Essa maldita esperança de novo. Confraternizei com uma alface de plástico
servida a bordo que nem sequer foi servida ao casal. Os comissários perdoavam.
Tinham certeza de que se houvesse um acidente morreriam felizes por poderem
estar juntos sem o cinto de segurança.
Anunciaram, então, que
faltava meia hora para o pouso. Agradeci a Deus. Já havia superado o meu
limite, estava de bom-humor e já tinha até detectado lá no fundo uma alegria
meio suspeita. Foi quando o casal silenciou. Ainda de mãos dadas e olhando nos
olhos um do outro começaram a dizer o quanto tinha sido importante aquele fim
de semana. “Fim de semana?”, pensei. Ela
dizia que ia sentir muita falta da orelha dele. Ele, mais corajoso, dizia o
mesmo em relação ao corpo dela. Ela tinha adorado as mãos dele. Ele as dela.
Ela queria ter um filho homem. Ele disse: “eu também!”. Ela disse que a
mulher sempre sabe quem será o pai dos
seus filhos. Ele se espantou, mas concordou. Os homens também sabiam.
Silenciaram. Olhavam agora para a frente e repetiam, como quem tenta convencer
a si próprio, que o importante é viver o momento. Numa dessas terríveis
coincidências, o tempo havia fechado e chovia muito, o que fazia com que eu
sentisse a alface de plástico muito próxima de voltar à sua origem devido aos
tremores do avião. Mas, vela não apaga
assim. Eu, pelo menos, não.
O casal agora trocava
endereços e ambos diziam que iam telefonar. Ela cantou um trecho de uma música.
Ele consentiu. Sorriram amarelo. “Atenção
passageiros, apertem os cintos, preparar
para o pouso”. Se olharam. Tentaram sorrir. Não teve graça. Então choraram.
E se abraçaram novamente nos dez minutos intermináveis dos amantes. Eu mereço.
Dessa vez, em mais uma das terríveis coincidências, o comissário não passou
direto. Mandou que voltassem às suas posições normais e separou o abraço. Não
aguentei. A vela teve que escorrer mais uma lágrima de cera.
Fim
do segundo episódio
Ah, antes disso ela disse
a ele: “Meu namoro acabou”. Não entendi.
Pegar bagagens. Eu, de
novo, naquele aeroporto. Agora era o casal que tinha cara de vela. Eu estava,
graças a Deus, muito feliz de não ser mais obrigada a compartilhar daquela
história. Só que algo esquisito havia acontecido. Como se eu tivesse gostado de
começar a acreditar. Não sei. Nunca se sabe.
Resolvi, então, acompanhar
o desfecho daquele romance. Pegamos todas as nossas bagagens e segui a dupla
com meu carrinho. Saímos. Ela dizia afastada dele: “Posso ligar?”. Ele
respondia: “Promete?” Ela: “Amanhã?” Ele: “Promete?” Ela: “Casa comigo?” Ele:
“Promete?”. Os carrinhos se afastando, afastando, afastando..., e eis que a
vejo beijando outro ele e ele beijando outra
ela. Meu Deus! Que loucura! Só pode ser esse aeroporto, pensei. Confesso que
fiquei meio confusa a até um pouco triste porque já estava torcendo pelo casal.
Quem sabe eles não se encontram novamente, não é? Quem vai saber? Ninguém. Nem
eles.
Pensei, então, que, na
verdade, a vida é um imenso aeroporto. Que estamos todos vindo e indo para
algum lugar de onde não sabemos se vamos voltar. Estamos todos nos ares,
flutuando entre um “fica mais um pouquinho” e um “até logo”. Check-in aberto.
Últimos dez minutos. Um quadro de vôos piscando, piscando, piscando, 175, 194,
703, 209, 326,... Impossível não viajar. Todo mundo um dia é engolido pela
esteira da bagagem e levado para cima das nuvens, para perto das estrelas, para
longe do mar, para o lado do sol. E, realmente, se formos observar, visto lá de
cima o mundo é mesmo muito grande e nós
muito pequenos. E essas histórias que eu acabei de contar, então, menores
ainda.
Para esses dois casais que
partiram rumo ao não sei, só tenho a dizer, olhando daqui da janelinha: “O que
é um adeus diante do cosmos?”
Nada além de uma gota de
cera.
Bianca Ramoneda, in "Só"

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