segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011


"Eu não fugi de você. Não, Lídio, eu fugi do seu silêncio. Você não saía de dentro de si mesmo, eu não pude conhecer você, Lídio, você não deixava, e eu não sei viver escondida do mundo. Eu não aprendi a amar o que desconheço. Bem que tentei, mas você nunca se mostrou, e eu preciso sentir a vida latejando ao redor de mim. Não aprendi a entender a frieza das pedras, o silêncio das rochas que existem em você. Até as águas, Lídio, até as águas murmuram ou esbravejam, falam na linguagem sussurada ou ruidosa, dizem quando estão enchendo, dizem quando estão vazando, e só silenciam quando estão cansadas e dormem. Eu sou inqueta como a águas, Lídio, tenho o tempo de silenciar quando estou cansada e adormeço, mas preciso do susssurro e preciso do ruído quando estou desperta, porque estou viva e palpito, e pulso com tudo o que pulsa por sua própria natureza. Mas você, Lídio, você é como os búzios fechados, sua vida está encerrada dentro de você, no seu labirinto de pregoari, e não se divide com a inquietação das águas..."

Gláucia Lemos, in Bichos de Conchas"

Nenhum comentário:

Postar um comentário