Saber que alguns fatos acontecem sempre da mesma forma nos ajuda a conviver com as constantes transformações da vida. É a mãe natureza que nos dá esses sinais imutáveis, confortantes e cheios de significado.
Faça chuva ou faça sol, os rios correm para o mar. Seja qual for o ponto do planeta em que o admiremos, o Sol nasce no leste e morre no oeste. O céu estará sempre acima de nossa cabeça e os pés plantados no chão. As ondas vão e vêm, repetindo infinitamente a mesma coreografia. E, tão previsível quanto esse movimento do mar, é o fato de a noite suceder o dia. “São essas referências fixas da natureza que dão a sensação de estabilidade de que precisamos para viver. Elas orientam, localizam e estruturam nosso mundo. Se nos identificássemos apenas com o impermanente, não teríamos senso de identidade”, explica a psicoterapeuta Monika von Koss, de São Paulo.
As leis da física também trabalham a nosso favor, ajudando a manter coeso nosso mundo interior e exterior. “Somos feitos de complexos de carbono, a mesma química que permeia todo o Cosmo. O elétron gira em torno do átomo, não sai voando por aí. Isso garante estabilidade ao Universo”, revela o astrônomo Amâncio Friaça, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.
No fluxo da vida
A mesma natureza que oferece exemplos práticos de constância, persistência e nos assegura que amanhã o mundo continuará no mesmo lugar e terá a mesma conformação ensina outra lição que soa quase paradoxal: duradouro não é sinônimo de estanque. As coisas só se perpetuam, pregam as filosofias orientais, porque são constituídas de partes mutáveis. “É a transformação que torna as coisas permanentes. Por exemplo: um casamento só será duradouro se passar pelas mudanças naturais que ocorrem nos relacionamentos. Se um mudou e o outro não, o casamento acaba. Tudo em nosso corpo cresce simultaneamente. Se uma parte ficar imutável e deixar de se desenvolver, afetará o todo”, aponta Roberto Otsu, especialista em I Ching, o oráculo e livro de sabedoria chinesa escrito há mais de 3 mil anos.
Segundo Otsu, foi também o fato de termos mudado que garantiu a sobrevivência e perpetuação da espécie humana. “A natureza sempre repete o caminho natural. Podemos aprender com ela que tudo é um processo, que podemos ser mais felizes se seguirmos o fluxo natural das coisas e não tentarmos reter o que precisa ser transformado”, completa.
A máxima chinesa “sempre a primavera, nunca as mesmas flores” sintetiza o delicado e sutil relacionamento entre o mutável e o imutável no Universo e em nossa vida. O especialista em I Ching Roberto Otsu aponta, a seguir, as lições que podemos extrair da observação de alguns fenômenos duradouros.
As ondas vêm e vão – O movimento de ir e vir é imutável, porém constituído de dois opostos mutáveis: as ondas vêm e vão, o que simboliza as energias yin (contração) e yang (expansão), as duas polaridades opostas e complementares que, segundo a filosofia chinesa, estão em todas as coisas do Universo. “A lição que podemos aprender com as ondas é a do desapego. A vida traz e leva coisas, esse é seu curso natural e é assim que crescemos. Esse fluxo abre espaço para a renovação. Se o interrompemos porque desejamos apenas receber e acumular o que chega, ocorrerá um desequilíbrio, que pode ser devastador. O movimento de ir e vir das ondas é idêntico ao da respiração: inalamos o ar, retemos para absorvê-lo e, em seguida, expiramos e reiniciamos o processo”, compara Roberto Otsu.
Depois da noite vem o dia – O dia tem 24 horas, e isso é imutável. Porém ele é feito de duas fases, a diurna e a noturna, o movimento e o repouso. Segundo os chineses, a noite começa ao meio-dia, quando, depois de atingir o zênite, o Sol começa a declinar. Da mesma forma, o dia inicia a partir da noite. “Isso mostra que nada é inteiramente bom ou mal, preto ou branco. A natureza nos diz que as coisas acontecem gradualmente, interagem e se transformam. Em vez de fixar os acontecimentos, podemos saborear o fluxo da vida e prestar mais atenção nos pequenos sinais de mudança que ocorrem a todo instante”, diz o especialista em filosofia chinesa.
O céu está acima da cabeça e os pés no chão – Quem garante é a lei da gravidade, e a natureza também revela que existem posições naturais. Transpondo isso para questões pessoais, cada um tem sua singularidade e função no mundo. Para os chineses, o céu representa o criador e a terra é a que realiza materialmente o impulso do criador. “As pessoas também são assim e suas características diferentes são aproveitadas, por exemplo, nas empresas. O que nos torna iguais é o fato de sermos diferentes. Esse paradoxo ensina que devemos nos aceitar como somos, aceitar nossos limites, peculiaridades e transformações. E que não há razão para termos inveja de outras pessoas”, aponta Otsu. O céu representa ainda espiritualidade e elevação, enquanto a terra simboliza o aspecto material. Quanto mais uma pessoa se aproxima de sua essência, acredita Otsu, mais próxima fica do céu e mais elevada se torna. “Perceber nossos limites, os ciclos e as mudanças ajuda a confiar mais na vida”, diz.
Os rios correm para o mar – Esse fenômeno natural é um exemplo de adaptabilidade e flexibilidade. Eles não vão diretamente para o oceano. Eles mudam de curso, rumam para o norte, às vezes para o oeste e se moldam ao trajeto. “Essas alterações de direção também fazem parte da vida e ensinam a não resistir às transformações, a não querer que tudo seja sempre da maneira como imaginamos. Muitas vezes, o que nos atrita com a vida é querer que tudo dure para sempre. Quando paramos de resistir às mudanças naturais da vida, entramos num fluxo de paz e tranqüilidade. É como usar roupa leve no verão e malha no inverno”, compara Roberto Otsu.
O Sol nasce no leste e morre no oeste – Leste e oeste são conceitos criados pelo homem. Não é o Sol que morre ou nasce, é o planeta que gira. O movimento do Sol é aparente, não é real. “Isso nos ensina a não julgarmos as coisas pela aparência. Assim como leste e oeste e direita e esquerda, certo e errado são conceitos. O julgamento representa apenas um ponto de vista, não a realidade absoluta. Se nos fixamos no detalhe, corremos o risco de perder a visão do todo”, finaliza ele.
Texto: Fanny Zigband
Reportagem: Liliane Oraggio Cocchiaro e Fanny Zigband
Reportagem: Liliane Oraggio Cocchiaro e Fanny Zigband


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